O El Niño – tudo o que precisa de saber
Resumo: O El Niño é um fenómeno natural de aquecimento das águas do Pacífico equatorial que pode alterar a circulação atmosférica global. Contudo, a sua influência em Portugal é indireta e depende da interação com outros fatores, pelo que não permite antecipar, por si só, ondas de calor, secas ou invernos chuvosos. Para compreender as tendências no nosso país, é mais importante analisar a circulação no Atlântico Norte, nomeadamente a posição do anticiclone dos Açores e a trajetória das depressões, muito influenciadas pela Oscilação do Atlântico Norte (NAO), sobretudo no inverno.
Muito se tem escrito ultimamente na internet e nos meios de comunicação sobre o fenómeno climático “El Niño”. Entre notícias, previsões e títulos por vezes exagerados, fica frequentemente a ideia de que este fenómeno permite antecipar, por si só, um verão muito quente, uma seca prolongada ou um inverno particularmente chuvoso em Portugal. Mas será assim tão simples? A resposta é não.
O El Niño é um fenómeno climático natural, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, sobretudo nas regiões central e oriental. Este aquecimento está associado a alterações na circulação atmosférica tropical, com repercussões em diferentes regiões do planeta. Em algumas áreas, pode favorecer precipitação mais abundante; noutras, pode aumentar a probabilidade de seca ou de temperaturas mais elevadas.
Contudo, a influência do El Niño não é igual em todo o mundo. Em Portugal, os seus efeitos são geralmente indiretos, variáveis e difíceis de isolar. Não existe uma relação simples que permita concluir que a presença deste fenómeno resultará obrigatoriamente num determinado tipo de tempo no nosso país. A eventual influência depende da época do ano, das características de cada episódio e da interação com outros padrões atmosféricos.

É incorreto associar automaticamente um El Niño a ondas de calor, secas ou invernos chuvosos em Portugal. Uma associação observada em algumas situações não constitui uma regra válida para todos os episódios. Muito menos permite prever, com meses de antecedência, quando vai chover numa determinada localidade ou quantos dias de calor intenso teremos durante o verão.
Na realidade, existem outros padrões de variabilidade climática muito mais próximos e relevantes para compreender o comportamento do tempo em Portugal, mas que raramente recebem a mesma atenção mediática.
Um dos exemplos mais importantes é a Oscilação do Atlântico Norte, conhecida pela sigla NAO. Já ouviu falar? Este padrão está relacionado com as variações da pressão atmosférica na região do anticiclone dos Açores e da depressão da Islândia, influenciando a circulação atmosférica sobre o Atlântico Norte.
Durante o inverno, uma NAO positiva tende a favorecer a passagem das depressões por latitudes mais elevadas, aumentando a probabilidade de condições secas em Portugal. Uma NAO negativa pode facilitar a deslocação dessas depressões para sul, favorecendo períodos mais chuvosos na Península Ibérica. Ainda assim, estamos a falar de tendências, não de garantias: a posição concreta dos centros de pressão continua a ser determinante.

Também importa considerar outros elementos, como os bloqueios anticiclónicos, a temperatura das águas do Atlântico e a interação entre diferentes padrões de circulação. Uma pequena alteração na localização de um anticiclone ou de uma depressão pode mudar significativamente o estado do tempo em Portugal. Por isso, olhar apenas para o Pacífico deixa de fora uma parte essencial da análise.
O atual episódio de El Niño merece acompanhamento, mas a sua evolução não deve ser confundida com uma previsão específica para o nosso país. O sistema climático alterna naturalmente entre fases de El Niño, La Niña e condições neutras, sem que essa alternância imponha sempre as mesmas consequências em todas as regiões.
Em Portugal, diferentes episódios podem coincidir com condições distintas de precipitação e temperatura. Para compreender essas diferenças, é necessário analisar o conjunto da situação atmosférica e a evolução dos restantes fatores.
Por isso, embora o El Niño seja importante à escala global, é essencial evitar exageros e simplificações. Informar sobre o clima exige contexto, rigor e uma comunicação clara da incerteza. Um fenómeno que ocorre a milhares de quilómetros pode fazer parte da explicação, mas dificilmente será a explicação completa. É assim que funciona a meteorologia e a climatologia: através da interação de múltiplos fatores, e não de uma única causa.
Artigo escrito por André Frade, no dia 28/10/2026 às 12h53.


